45 Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
O próprio Mestre, desde o início do apostolado, desvenda às criaturas o retiro da elevação pelo sacrifício.
Sofre, renunciando ao divino esplendor do Céu, para acomodar-se à sombra terrestre na estrebaria.
Experimenta a incompreensão de sua época.
Auxilia sem paga.
Serve sem recompensa.
Padece a desconfiança dos mais amados.
Depois de oferecer sublime espetáculo de abnegação e grandeza, é içado ao madeiro por malfeitor comum.
Ainda assim, perdoa aos verdugos, olvida as ofensas e volta do túmulo para ajudar.
Todos os seus companheiros de ministério, restaurados na confiança, testemunharam a Boa Nova, atravessando dificuldade e luta, martírio e flagelação.
Inúteis, desse modo, nos círculos de nossa fé, os petitórios de protecionismo e vantagens inferiores.
Ressurgindo no Espiritismo, o Evangelho faz-nos sentir que tornamos à carne para regenerar e reaprender.
Com o corpo físico, retomamos nossos débitos, nossas deficiências, nossas fraquezas e nossas aversões...
E não superaremos os entraves da própria liberação, providenciando ajuste inadequado com os nossos desejos inconsequentes.
Acusar, reclamar, queixar-se, não são verbos conjugáveis no campo de nossos princípios.
Disse-nos o Senhor -"Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” Isso não quer dizer que devamos ajoelhar em pranto de penitência pé de nossos adversários, mas sim que nos compete viver de tal modo que eles se sintam auxiliados por nossa atitude e por nosso exemplo, renovando-se para a o bem, de vez que, enquanto houver crime e sofrimento, ignorância e miséria no mundo, não podemos encontrar sobre a Terra a luz do Reino do Céu.
O problema do inimigo sempre merece estudos mais acurados.
Certo, ninguém poderá aderir, de pronto, à completa união com o adversário do dia de hoje, como Jesus não pôde rir-se com os perseguidores, no martírio do Calvário.
Entretanto, a advertência do Senhor, conclamando-nos a amar os inimigos, reveste-se de profunda significação em todas as facetas pelas quais a examinemos, mobilizando os instrumentos da análise comum.
Geralmente, somos devedores de altos benefícios a quantos nos perseguem e caluniam; constituem os instrumentos que nos trabalham a individualidade, compelindo-nos a renovações de elevado alcance que raramente compreendemos nos instantes mais graves da experiência.
São eles que nos indicam as fraquezas, as deficiências e as necessidades a serem atendidas na tarefa que estamos executando.
Os amigos, em muitas ocasiões, são imprevidentes companheiros, porquanto contemporizam com o mal; os adversários, porém, situam-no com vigor.
Pela rudeza do inimigo, o homem comumente se faz rubro e indignado uma só vez, mas, pela complacência dos afeiçoados, torna-se pálido e acabrunhado, vezes sem conta.
Não queremos dizer com isto que a criatura deva cultivar inimizades; no entanto, somos daqueles que reconhecem por beneméritos credores quantos nos proclamam as faltas. São médicos corajosos que nos facultam corretivo.
É difícil para muita gente, na Terra, a aceitação de semelhante verdade; todavia, chega sempre um instante em que entendemos o apelo do Cristo, em sua magna extensão.
Imperioso modifiques a própria conceituação, em torno do adversário, a fim de que se te apague da mente, em definitivo, o fogo da aversão.
Isso porque o suposto ofensor pode ser alguém:
que age sob a compulsão de grave processo obsessivo;
que se encontra sob o guante da enfermidade e, por isso, inabilitado a comportar-se corretamente;
que experimenta deploráveis enganos e se acomoda na insensatez;
que não pode enxergar a vida no ângulo em que a observas.
E que nenhum de nós encontre motivos para lhe reprovar o desajuste, porquanto nós todos somos ainda suscetíveis de incorrer em falhas lamentáveis, como sejam:
cair sob a influência perturbadora de criaturas a quem dediquemos afeições sem o necessário equilíbrio;
iludir-nos a nosso próprio respeito quando não pratiquemos o regime salutar da autocrítica;
entrar em calamitoso desequilíbrio por efeito de capricho momentâneo;
assumir atitudes menos felizes, por deficiência de evolução, à frente de companheiros em posições mais elevadas que a nossa.
Em síntese, para sermos desculpados é preciso desculpar.
Reflitamos na absoluta impropriedade de qualquer ressentimento e recordemos a advertência de Jesus quando nos recomendou a oração pelos que nos perseguem.
O Mestre, na essência, não nos impelia tão-só a beneficiar os que nos firam, mas igualmente a proteger a sanidade mental do grupo em que fomos chamados a atuar e servir, imunizando os companheiros, relativamente ao contágio da mágoa, e frustrando a epidemia da queixa, sustentando a tranqüilidade e a confiança dos outros, tanto no amparo a eles quanto a nós.
Todos aqueles espíritos interpretados como maus são irmãos nossos
- criaturas do Criador, quanto nós mesmos
- credores de auxílio e consideração.
-A maldade, em muitos, provém da ignorância que compele o ser a comportamento infeliz, reclamando assistência educativa.
-Às vezes a crueldade não é senão doença catalogável na patologia da mente, agravada, em muitas ocasiões, por influência obsessiva solicitando ajuda curativa ao invés de punição.
- Muitos criminosos são companheiros que não resistiram às tentações trazidas de existências passadas, incursos em faltas das quais somos passíveis em nossa atual posição de consciências endividadas perante a Lei.
-O malfeitor no cárcere ou em cumprimento da pena que lhe foi cominada é semelhante ao enfermo no hospital ou em tratamento adequado, requerendo compreensão e apoio fraterno.
-Ninguém experimenta alegria ante as vítimas do mal, como ninguém sente prazer diante do vizinho que a moléstia perturba, mas, assim como o doente do corpo exige medicação, o doente da alma requisita socorro.
-Tanto quanto não será possível prever a extensão do incêndio sem medidas que o combatam, ninguém pode acautelar-se do alastramento do mal sem a colaboração do bem que o elimine.
-Quando a pessoa conhece as próprias responsabilidades e pratica o mal mesmo assim, entreguemo-la a si mesma, convencidos de que essa pessoa carregará no subconsciente a dor da culpa até que se liberte, pelo sofrimento, da sombra em que se envolveu.
-Situemos-nos em lugar dos nossos irmãos caídos e verificaremos que eles precisam muito mais de assistência que de censura.
-Quando as circunstâncias nos impeçam o abraço fraternal imediato aos que nos feriram, não nos esqueçamos de que, ainda assim, ser-nos-á possível auxiliá-los sempre através da oração.
O ofensor apareceu diante de ti à maneira de um teste de aprimoramento moral.
Injuriou-te o nome.
Zombou-te dos brios.
Gritou-te ameaças.
Golpeou-te os sentimentos.
Desafiou-te a capacidade de tolerância.
Apedrejou-te os ideais.
Escarneceu-te dos propósitos.
Torturou-te o pensamento.
Disse Jesus: “Ama os teus inimigos”, mas não recomendou que os tomássemos por modelos de serviço e conduta, quando os nossos opositores se afeiçoem ao mal.
Mentaliza um homem estirado no charco.
É razoável lhe estendas a mão, no fito de socorre-lo; entretanto, nada justo te afundes, por isso, conscientemente no barro.
É preciso salvar as vítimas do incêndio, mas a vida não te pede o mergulho desamparado nas chamas.
O adversário é sempre alguém digno do auxílio ao nosso alcance, mas nem sempre, com desculpas de amor, devemos fazer aquilo que ele estima fazer.
Os inimigos, queiramos ou não, são filhos de Deus como nós e, consequentemente, nossos irmãos, para quem Deus providenciará recursos e caminhos dentro da mesma bondade com que age em nosso favor.
Temos muito a dever aos amigos pelos estímulos com que nos asseguram êxito na vida, mas não podemos esquecer que devemos bastante aos nossos inimigos pelas oportunidades que nos proporcionam no sentido de retificarmos os próprios erros.
O adversário é mais propriamente aquele que sulca a nossa alma, à feição do lavrador que cava a terra, a fim de que produzamos na seara do bem.
O amor pelos inimigos dar-nos-á excelentes recursos contra o desajuste circulatório, a neurose, a loucura ou a úlcera gástrica, sempre que estejamos em tarefa no corpo físico.
Orando em benefício dos que nos ferem evitamos maiores perturbações em torno de nós mesmos.
Uma atitude respeitosa para com os adversários nunca nos rouba tempo ao serviço.
Amando os inimigos e entregando-nos sinceramente ao juízo de Deus, com as melhores vibrações de fraternidade, eliminamos noventa por cento dos motivos de aflição e aborrecimento.
Abençoando em silêncio os que nos criticam ou golpeiam, protegemos com mais segurança os interesses do trabalho que a Providência Divina nos concedeu.
A serenidade e o apreço para com os inimigos são os melhores antídotos para que as preocupações com eles não nos destruam.
O amor pelos inimigos não nos rouba a paz da consciência, na hipótese de serem malfeitores confessos, porque, quando Jesus nos diz ide e reconciliai-vos com o adversário, nos ensina a fazer paz em nossas relações, como não é justo privar de tranquilidade uma criança ou um doente.
Mas em trecho algum do Evangelho Jesus nos recomenda cooperar com eles.
Temos, efetivamente, duas classes de adversários, aqueles que não concordam conosco e aqueles outros que suscitamos com a nossa própria cultura de intolerância.
Os primeiros são inevitáveis.
Repontam da área de todas as existências, mormente quando a criatura se encaminha para diante nas trilhas de elevação.
Nem Jesus viveu ou vive sem eles.
Os segundos, porém, são aqueles cujo aparecimento podemos e devemos evitar. Para isso, enumeremos alguns dos prejuízos que angariaremos, na certa, criando aversões em nosso caminho:
focos de vibrações contundentes;
centros de oposição sistemática;
ameaças silenciosas;
portas fechadas ao concurso espontâneo;
opiniões quase sempre tendenciosas, a nosso respeito;
suspeitas injustificáveis;
propósitos de desforço;
antipatias gratuitas;
prevenções e sarcasmos;
aborrecimentos;
sombras de espírito.
Qualquer das parcelas relacionadas nesta lista de desvantagens bastaria para amargurar larga faixa de nossa vida, aniquilando-nos possibilidades preciosas ou reduzindo-nos eficiência, tranquilidade, realização e alegria de viver.
Fácil inferir que apenas lesamos a nós mesmos, fazendo adversários, tanto quanto é muito importante saber tolerá-los e respeitá-los, sempre que surjam contra nós.
Compreendemos, assim, que quando Jesus nos recomendou amar os inimigos estava muito longe de induzir-nos à conivência com o mal, e sim nos entregava a fórmula ideal do equilíbrio com a paz da imunização.
Se isso acontece, habitualmente estás diante de uma pessoa desinformada ou doente que te recebe com evidentes demonstrações de desapreço.
E quando esse alguém, não consegue asserenar-te o campo íntimo a certas reações negativas, por vezes, alteia a voz e se faz mais inconveniente nas provocações.
De qualquer modo, tolera o opositor com paciência e serenidade.
Ouve-lhe as frases ásperas em silêncio e reflete no desgosto ou na enfermidade em que provavelmente se encontre.
Quando haverá sofrido a criatura, até que se obrigue a trazer o coração simbolicamente transformado num vaso de fel?
Anota por ti mesmo que todos aqueles que ferem estarão talvez feridos.
Age à frente dos inimigos de teus ideais ou de teus pontos de vista, com entendimento e tolerância.
Advertiu-nos o Divino Mestre: - “Ora por aqueles que te perseguem ou caluniam.” O Cristo nunca nos exortou ao revide ou à discussão sem proveito.
E ainda mesmo que estejam semelhantes companheiros agindo de maneira insincera, saibamos confiá-los ao tempo, de vez que, para que se lhes reajuste os mais íntimos sentimentos, bastar-lhes-á-viver.
Quando Jesus nos exortou ao amor pelos inimigos, indicou-nos valioso trabalho imunológico em favor de nós mesmos.
Se trazes a consciência tranquila, diante da criatura que, acaso, te injurie, estarás na mira de uma pessoa evidentemente necessitada de compreensão e de auxílio espiritual.
O adversário gratuito pode estar desinformado a teu respeito e, por isso, reclama esclarecimento e não represália.
Talvez esteja experimentando certa inveja dos recursos de que dispões e, em vista disso, necessitará de caridade e silêncio para que não seja induzido ao desespero.
Sofrerá provavelmente de miopia espiritual, diante dos objetivos superiores pelos quais te orientas e, por essa razão, aguarda tolerância, até que o entendimento se lhe amadureça.
Será possivelmente um candidato à luta competitiva com os teus esforços em realização determinada e, por isso, reclama respeito para que não caia em perdas de vulto.
Repontará do cotidiano por alguém intentando fazer a tarefa de que te incumbes e, por semelhante motivo, merece vibrações de paz, a fim de que encontre encargos idênticos aos teus.
Por fim, talvez surja na condição de doente da lama, sob a influência de obsessões ocultas e, em vista disso, precisará de compaixão.
Jesus conhecia esses lances de desequilíbrio da personalidade humana e, naturalmente, nos impulsiona ao perdão e a prece, em auxílio de quantos se nos façam agressores.
É que não adianta passar recibos ao mal, de vez que estaríamos ambientando em nós mesmos, as dificuldades e deficiências dos nossos perseguidores.
Amar aos inimigos será abençoá-los, desejando-lhes a tranqüilidade de que carecem, livrando-nos, antecipadamente, de quaisquer entraves com que nos desejem marcar caminho.
Compreender e desculpar sempre, porque todos necessitamos de compreensão e desculpa, nas horas do desacerto, mas observar a coerência para que os diques da tolerância não se esbarrondem, corroídos pela displicência sistemática, patrocinando a desordem.
Disse Jesus: "amai os vossos inimigos".
E o Senhor ensinou-nos realmente a amá-los, através dos seus próprios exemplos de humildade sem servilismo e de lealdade sem arrogância.
Ele sabia que Judas, o discípulo incauto, bandeava-se, pouco a pouco, para a esfera dos adversários que lhe combatiam a mensagem renovadora...
A pretexto de amar os inimigos, ser-lhe-ia lícito afastá-lo da pequena comunidade, a fim de preservá-la, mas preferiu estender-lhe mãos fraternas, até a última crise de deserção, ensinando-nos o dever de auxiliar aos companheiros de tarefa, na prática do bem, enquanto isso se nos torne possível. Não ignorava que os supervisores do Sinédrio lhe tramavam a perda...
A pretexto de amar os inimigos, poderia solicitar-lhes encontros cordiais para a discussão de política doméstica, promovendo recuos e concessões, de maneira a poupar complicações aos próprios amigos, mas preferiu suportar-lhes a perseguição gratuita, ensinando-nos que não se deve contender, em matéria de orientação espiritual, com pessoas cultas e conscientes, plenamente informadas, quanto às obrigações que a responsabilidade do conhecimento superior lhes preceitua.
Certificara-se de que Pilatos, o juiz dúbio, agia, inconsiderado...
A pretexto de amar os inimigos, não lhe seria difícil recorrer à justiça de instância mais elevada, mas preferiu aguentar-lhe a sentença iníqua, ensinando-nos que a atitude de todos aqueles que procuram sinceramente a verdade não comporta evasivas.
Percebia, no sacrifício supremo, que a multidão se desvairava...
A pretexto de amar os inimigos, era perfeitamente cabível que alegasse a extensão dos serviços prestados, pedindo a comiseração pública, a fim de que se lhe não golpeasse a obra nascente, mas preferiu silencia e partir, invocando o perdão da Providencia Divina para os próprios verdugos, ensinando-nos que é preciso abençoar os que nos firam e orar por eles, sem, contudo, premiar-lhes a leviandade para que a leviandade não alegue crescimento com o nosso apoio. Jesus entendeu a todos, beneficiou a todos, socorreu a todos e esclareceu a todos, demonstrando-nos que a caridade, expressando amor puro, é semelhante ao sol que abraça a todos, mas não transigiu com o mal.
Isso quer dizer que fora da caridade não há tolerância sem coerência.
O espírita, porém, sabe que subsistem outras, piores talvez...
Não ignora que aparecem dias mascarados de felicidade aparente, em que o sentimento anestesiado pela ilusão se rende à sombra.
Tempos em que os companheiros enganados se julgam certos...
Ocasiões em que os irmãos saciados de reconforto sentem fome de luz e não sabem disso...
Nem sempre estarão eles na berlinda, guindados, à evidência pública ou social, sob sentenças exprobatórias ou incenso louvaminheiro da multidão...
Às vezes, renteiam conosco em casa ou na vizinhança, no trabalho ou no estudo, no roteiro ou no ideal...
O espírita consciente reconhece que são eles os necessitados difíceis das horas escuras.
Em muitos lances da estrada vê-se obrigado a comungar-lhes a presença, a partilhar-lhes atividade, a ouvi-los e a obedecê-los, até o ponto doméstico lhe preceituem determinadas obrigações.
Entretanto, observa que para lhes ser útil, não lhe será lícito efetivamente aplaudi-los, à maneira do caçador que finge ternura à frente da presa, afim de esmagá-la com mais segurança.
Como, porém, exercer a solidariedade, diante deles?
- perguntarás. Como menosprezá-los se carecem de apoio?
Precisamos, no entanto, verificar que, em muitos requisitos do concurso real, socorrer não será sorrir.
Todos conseguimos doar cooperação fraternal aos necessitados difíceis das horas escuras, seja silenciando ou clareando situações, nas medidas do entendimento evangélico, sem destruir-lhes a possibilidade de aprender, crescer, melhorar e servir, aproveitando os talentos da vida , no encargo que desempenham e na tarefa que o Mestre lhes confiou.
Mesmo quando se nos façam adversários gratuitos, podemos auxiliá-los...
Jesus não recomendou festejar os que nos apedrejem a consciência tranquila e nem nos ensinou a arrasá-los.
Mas, ciente de que não nos é possível concordar com eles e nem tampouco odiá-los, exortou-nos claramente: "amai os vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem e caluniam!..."
É assim que a todos os necessitados difíceis das horas escuras, aos quais não nos é facultado estender os braços de pronto, podemos amar em espírito, amparando-lhes o caminho, através da oração.
Defende o mundo íntimo contra aqueles adversários ocultos que não devemos acalentar.
Decerto, dói-te a ofensa do agressor que te não percebe as intenções elevadas,
Em verdade, a calúnia do amigo perturbado lança fogo ao santuário de teus ideais, subtraindo-te a confiança, todavia, a crueldade que se refugia em teu ser por tigre invisível de intemperança e discórdia é o inimigo perigoso que te sugere a adesão ao crime.
Efetivamente, o desprezo que te foi lançado em rosto pelo companheiro infeliz é golpe mortal abrindo-te chagas de aflição nos tecidos sutis da alma, no entanto, o egoísmo a ocultar-se em teu peito por chacal intangível de ignorância e ferocidade, é o inimigo temível que te arroja à frustração.
Não são os flagelos do mundo exterior os elementos que nos deprimem, mas sim os opositores ocultos, conhecidos pelos mais diversos nomes, quais sejam orgulho e maldade, tristeza e preguiça, desespero e ingratidão, que perseveram conosco.
Amemos aos inimigos externos que nos desafiam à prática do bem, ao exercício da renúncia, ao trabalho da paciência e à realização da caridade, mas tenhamos cautela contra os sicários escondidos em nós mesmos que, expressando sentimentos indignos de nosso conhecimento e de nossa evolução, nos escravizam à angustia, e nos algemam à dor, enclausurando-nos a vida em miséria e perturbação.
Amar aos nossos adversários, desde o presente, ofertando-lhes o coração, em forma de tolerância e trabalho, devotamento e ternura é a fórmula exata para a solução dos grandes problemas que tantas vezes, por invigilância e leviandade, endereçamos, lamentavelmente ao futuro.
Recordemos que semelhantes laços de treva algemavam-nos o espírito às largas sendas inferiores, impondo-nos reencarnações difíceis e angustiosas, nos campos de purgação da experiência terrestre.
Enleiados a eles renascemos no mundo e porque se nos retarde o amor, nos testemunhos de paciência e compreensão, somos constrangidos pela Justiça Perfeita, a recebê-los compulsoriamente nas teias da consanguinidade, convertendo-se-nos o templo familiar em triste reduto de sofrimento.
É assim que, reinternados na Terra, quase sempre, acolhemos na forma de entes amados velhos inimigos, que se origem, no santuário doméstico, em nossos credores intransigentes.
Surgem por filhos tiranizantes e ingratos, ou parentes invulneráveis ao nosso melhor carinho, obrigando-nos a mais doloroso acerto, porque estruturado em suor e pranto, quando o nosso perdão puro e simples conseguiria fundir a bruma aviltante da crueldade em brisa de esquecimento.
Sofres?
Não te esqueças do “ Vinde a Mim “ do Divino Mestre e procura com ele o manancial da consolação, entretanto, não olvides que o Senhor espera não lhe tragas o fardo escabroso das torturas morais pelos caprichos desatendidos, na incapacidade de praticar o mal, de vez que, em muitas ocasiões, a nossa dor é simples aflição da nossa própria rebeldia, à frente da Lei.
Tens sede?
Busca no Cristo a fonte das águas vivas, na certeza, porém, de que a corrente cristalina apagar-te-á a volúpia de conforto e o anseio indébito de ouro e dominação.
Tens fome?
Procura no Benfeitor Celeste o Pão que desceu do Céu, entretanto, roga-lhe, antes de tudo, te sacie a fome desvairada de prazeres e aquisições inúteis para que não te falte o ingresso ao banquete da Luz que o Evangelho te pode propiciar.
Sentes-te enfermo?
Procura em Jesus o Divino Médico, contudo, pede-lhe, atentamente, te conceda remédio contra as tuas próprias inclinações a desordens e excessos, porquanto, de ti mesmo procedem as vibrações enfermiças, que te constrangem ao desequilíbrio orgânico.
Há muita dor que é simplesmente inconformação e desrespeito aos estatutos que nos governam.
Há muita sede que é mera ambição desregrada, atormentando a alma e arrastando-a para o resvaladouro das trevas.
Há muita fome que não é senão exigência descabida do espírito invigilante.
“ Vinde a Mim! “ – disse-nos o Amigo Eterno.
Saibamos, pois, realizar a retirada de nós mesmos, se desse modo colocar-nos-emos ao encontro do nosso Divino Mestre e Senhor.
Companheiros difíceis não são as criaturas que ainda não nos atingiram a intimidade e sim aquelas outras que se fizeram amar por nós e que, de um momento para outro, modificaram pensamento e conduta, impondo-nos estranheza e inquietação.
Erigiam-se-nos por esteios à fé, soçobrando em pesada corrente de tentações... Brilhavam por balizas de luz, à frente da marcha, e apagaram-se na noite das conveniências humanas, impelindo-nos à sombra e à desorientação... Examinado, porém, o assunto com discernimento e serenidade, seria, justo albergamos pessimismo ou desencanto, simplesmente porque esse ou aquele companheiro haja evidenciado fraquezas humanas, peculiares também a nós? Atentos às realidades do campo evolutivo, em que nos achamos carregando fardos de culpas e débitos, deficiências e necessidades que se nos encravaram nos ombros, em existências passadas, como exigir dos entes amados, que nos respiram o mesmo nível, a posição dos heróis ou o comporta-mento dos anjos?
Se Jesus nos recomendou amar os inimigos, que diretriz adotar ante os companheiros que se fizeram difíceis, senão abençoá-los em mais alto grau de entendimento, carecedores como se encontram de mais ampla dedicação?
Sem dúvida, eles não podem, em muitas ocasiões, compartilhar-nos, de imediato, as atividades cotidianas, à vista dos compromissos diferentes a que se entregam; entretanto, ser-nos-á possível, no clima do espírito, agradecer-lhes o bem que nos fizeram e o bem que nos possam fazer, endereçando-lhes a mensagem silenciosa de nosso respeito e afeto, encorajamento e gratidão.
Tão logo apareçam diante de nós quaisquer problemas de injúria, prejuízo, discórdia ou incompreensão, é imperioso observar quão importante para o espírito é o estudo das próprias reações, a fim de que a mágoa não entre em condomínio com as forças que nos habitam a mente.
Ressentir-nos é cortar nos tecidos da própria alma ou acomodar-nos com o veneno que se nos atira, acalentando sofrimento desnecessário ou atraindo a presença da morte.
Isso porque, à face da lógica, todas as desvantagens no capítulo das ofensas pesam naqueles que tornam a iniciativa do mal.
O ofensor pode ser a criatura que está sob lastimáveis processos obsessivos, que carrega enfermidades ocultas, que age ao impulso de tremendos enganos, que atravessa a nuvem do chamado momento infeliz, e, quando assim não seja, é alguém que traz a visão espiritual enevoada pela poeira da ignorância, o que, no mundo, é uma infelicidade como qualquer outra.
Cabem, ainda, ao ofensor o pesadelo do arrependimento, o desgosto íntimo, o anseio de reequilíbrio e a frustração agravada pela certeza de haver lesado espiritualmente a si próprio.
Aos corações ofendidos resta unicamente um perigo – o perigo do
Entendendo isso, nunca respondas ao mal com o mal.
Considera que os ofensores são, quase sempre, companheiros obsessos ou desorientados, enfermos ou francamente infelizes, a quem não podemos atribuir responsabilidades maiores pelas condições difíceis em que se encontram. Recomendou-nos Jesus: “Amai os vossos inimigos”.
A nosso ver, semelhante instrução, além de impelir-nos à virtude da tolerância, faz-nos sentir que os ofendidos devem acautelar-se, usando a armadura do amor e da paciência, a fim de que não sofram os golpes do ressentimento, de vez que os ofensores já carregam consigo o fogo do remorso e o fel da reprovação.
Fundamenta-se no princípio justo das correspondências.
O ódio, o crime, a calúnia segregam forças perniciosas e destrutivas.
O perseguidor encarcera-se no abismo das inquietações;
o criminoso, onde estiver, é prisioneiro da consciência, guardado pelo remorso, então transformado em sentinela vigilante;
o caluniador envolve-se na peçonha dos próprios atos.
Emitem pensamentos destruidores, como o pântano os elementos mortíferos. Na lei das forças, que rege todos os fenômenos da vida, os semelhantes atraem-se uns aos outros.
Odiar aos que odeiam, retribuir o mal com mal, seria abrir portas em nós mesmos à selvageria dos que nos convocam a suas furnas de trevas. Alimentemos a chama benéfica que indique o caminho santo do bem mas evitemos o incêndio devastador que aniquila as possibilidades da vida.
Contra a labareda criminosa do mal, façamos chover os pensamentos calmantes do bem.
Toda vez que a onda escura da perseguição nos procure envolver na luta digna, oremos e vigiemos.
Encontrando-nos a resistência fraternal, voltarão os fios negros aos seus próprios autores, encasulando-os em sua obra.
Orai pelos que vos perseguem e caluniam, acendei a luz dos pensamentos nobres no círculo de sombras dos que vos tentam confundir, certos de que a maldade é o inferno dos maus e que cada Espírito carrega na vida o abismo tenebroso ou a montanha de luz, dentro de si mesmo.
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